Elogio adequado com peso e medida

Elogio adequado com peso e medida

In Psicologia adolescentes por Elisabete Condesso

Mães e pais sabem da importância de elogiarem os seus filhos, mas será que o fazem de forma adequada? O desafio é encontrar o equilíbrio certo sem exagerar: o elogio adequado com peso e medida. Quanto é demais ou quanto é muito pouco?

(Este artigo foi publicado na revista Pais&Filhos, nº 301, Fevereiro de 2016, pag. 52-55)

Artigo "elogio com peso e medida" na revista Pais&Filhos
Artigo “elogio com peso e medida” na revista Pais&Filhos

Quando se trata de elogiar, mais do que a quantidade, é a qualidade o que realmente importa na construção da autoestima infantil. Não existe uma fórmula matemática que imponha às mães e aos pais a quantidade certa para a quantidade de elogio com que devem obsequiar os seus filhos. Importa mais compreender o quando, onde e como realizar o elogio como ferramenta fundamental na formação de crianças confiantes e com uma autoestima saudável.

Hoje os pais elogiam os seus filhos em demasia

Dada a importância que hoje os pais atribuem ao elogio, muitos pais elogiam os seus filhos em qualquer lugar e em qualquer situação, pelo que estão a ficar verdadeiramente viciados no elogio aos seus filhos. Hoje, estamos no extremo oposto em que nos encontrávamos algumas décadas atrás, quando os pais só muito raramente expressavam sentimentos positivos, pois nessa época os pais entendiam que não deveriam abrandar na rigidez com que tratavam os seus filhos. Agora elogiamos as crianças em demasia. Os pais pensam que assim estão a construir a autoconfiança dos seus filhos, quando na verdade poderão estar precisamente a contribuir no sentido oposto.

Apesar de bem intencionados, os pais acabam por colocar os seus filhos num “pedestal”, ainda numa idade bastante precoce, o que pode realmente prejudicar o seu desenvolvimento. Demasiado elogio acaba por ter o efeito contrário ao incorrer-se num ato repetitivo que acaba por ser percebido pela criança como pouco sincero e não merecido. Ou faz com que a criança tenha medo de tentar coisas novas ou de assumir um risco com o medo de ficar aquém das elevadas espectativas dos seus pais. O elogio constante pode mesmo ser percebido pela criança como depreciativo. Para algumas crianças, fica uma mensagem subtil de que, em qualquer atividade, têm que obter sempre a aprovação ou validação dos seus pais, situação que contribui para limitar a sua capacidade de iniciativa, autonomia e independência.

Apesar de se verificarem alguns exageros, cuidado, ainda assim, não devemos ir longe demais na outra direção. Não elogiar o suficiente pode ser tão ou mais prejudicial. Se a criança não for elogiada, poderá sentir-se inferior aos outros ou poderá pensar que os seus pais não se preocupam suficientemente com ela e, como resultado, a sua autoestima será baixa e não se irá esforçar nas atividades ou tenderá a desistir facilmente.

Então, qual a quantidade certa de elogio? A questão correta não é essa porque o que importa não é a quantidade, mas sim a qualidade do elogio. O elogio adequado é aquele que tem o peso e medida certos. Se o elogio é sincero, genuíno e incide sobre o esforço e não sobre o resultado em si, os pais poderão elogiar as suas crianças tantas as vezes quantas elas forem merecedoras.

Mãe elogia a filha
Mãe elogia a filha

ABC do elogio adequado

O seu filho pode não ser um crânio na matemática, ou pode não ser o Ronaldo do bairro, mas se ele se esforça todos os dias e é muito emprenhado no que faz, então ele merece o seu elogio. Os pais têm que especialmente reconhecer os esforços das suas crianças independentemente dos resultados alcançados.

Elogiar o esforço e não o resultado é a chave para um elogio adequado.  

Qualquer que seja o cenário, o elogio deve ser dado caso-a-caso e ser proporcional à quantidade de esforço que o seu filho realiza na execução de uma tarefa. Indico-lhe de seguida algumas situações práticas:

  • O seu filho estuda regularmente todos os dias. Como mãe ou pai reconhece os seus bons hábitos de estudo, mas não faz sentido elogia-lo todos os dias, pois o estudo já é uma rotina que incorporou no seu dia-a-dia. Deve apenas elogiar o seu filho quando fizer algo fora do comum.
  • Quando o seu filho pratica durante semanas e finalmente aprende a andar de bicicleta. É uma situação merecedora do seu elogio devido à elevada persistência do seu filho.
  • O seu filho brinca no parque de diversões e consegue escorregar destemidamente. Ele é corajoso e aventureiro, mas não exagere com o elogio, pois apenas está a divertir-se e não a trabalhar arduamente.

Recompensa monetária é boa ideia?

Quando o seu filho se empenha naquela situação especial que é merecedora do seu elogio, certamente que poderá verbaliza-lo quando pensa que se ajusta melhor. Contudo, cuidado com o elogio comprado com dinheiro. Se dizer ao seu filho que se conseguir a classificação de “Muito Bom” a matemática, como recompensa irá comprar-lhe aquela consola de jogos que viu o outro dia na loja, então estará a criar uma situação em que o seu filho está motivado pelo dinheiro, mas não pelo sentimento positivo de alcançar bons resultados escolares.

Embora em geral a ideia de recompensar o seu filho com incentivos monetários não seja recomendada, há situações em que deve celebrar, como por exemplo, quando decide presenteá-lo com uma ida ao cinema ou jantar fora depois de saírem as classificações escolares trimestrais muito meritórias ou em resultado do bom desempenho no espetáculo que treinou durante bastante tempo. É uma forma de celebrar o trabalho árduo e a persistência da criança.

Conselhos práticos um elogio adequado

Elogios e recompensas tanto motivam como desmotivam as crianças, dependendo de como são usados. Por isso, antes de partir em aplausos, é importante que saiba o que fazer e o que deve evitar para que o seu filho valorize as suas palavras de encorajamento:

Seja autêntico. Tem que elogiar de forma genuína. As crianças sabem quando não está a ser sincero. Isso faz com que elas percam a confiança nas suas palavras. Pior ainda, as crianças tornam-se inseguras, porque não acreditam que as suas palavras são positivas e têm dificuldade em diferenciar as situações em que realmente quer elogiar daquelas em que o não quer fazer.

Seja específico. O elogio é mais eficaz quando é específico. Se for mais específico no elogio, ajuda a criança a identificar-se com as suas capacidades especiais. Em vez de dizer “este desenho está muito bonito”, poderá dizer “utilizaste uns tons de cor brilhantes e gostei muito da expressão desta menina”.

Foque-se no esforço. Elogie a criança pelo seu esforço e trabalho árduo, não necessariamente pelos resultados alcançados. Elogiar a criança pelos seus esforços é motivador, pois ensina-lhe o que ela faz bem. Poderá dizer ao seu filho “eu vejo que estás a tentar muito construir essa torre de lego”. Nem todas as crianças podem ser estudantes brilhantes ou atletas sobredotados. A criança que demonstre ser capaz de trabalhar árdua e perseverantemente já tem um talento especial, pelo que deve ser elogiada.

Aqui, é importante referir que dizer “és um bom menino porque arrumaste todos os teus brinquedos” centra-se no sentido da criança ser boa ou má, isto é, no seu comportamento, em vez do processo da atividade. Tais comentários influenciam negativamente a criança (especialmente a criança mais velha), pelo que devem ser evitados. O menino ou menina pode assumir que é mau ou má, porque não conseguiu resolver um problema ou não foi capaz de completar uma atividade.

Apresento-lhe a seguir uma tabela com exemplos de elogios pouco eficazes (ou a evitar) e como pode torna-los bastante mais eficazes.

Tabela elogio ineficaz vs elogio eficaz
Tabela elogio ineficaz vs elogio eficaz

Elogio adequado, o papel dos outros e a automotivação

Elogiar e gratificar as crianças pelas suas realizações tem como objetivo aumentar a sua motivação. Embora os pais desempenham um papel fundamental e insubstituível na motivação dos seus filhos, há que lembrar a importância das outras pessoas que interagem com a criança. Por exemplo, a criança é motivada quando está a brincar com os seus amigos ou quando recebe um elogio do professor.

No sentido oposto, o relacionamento da criança com os outros é frequentemente motivo de preocupação. Na minha atividade como psicóloga clínica, deparo-me frequentemente no meu consultório com crianças que apresentam dificuldades psicológicas, como por exemplo a depressão infantil, enurese ou dificuldades de aprendizagem, e que cuja causa principal é a relação da criança com os seus pares.

Um outro aspeto importante a considerar é que geralmente as crianças estão automotivadas e tendem simplesmente a fazer as coisas porque gostam de as fazer. Lembrar que todos nascemos com uma vontade inata de aprender e explorar o ambiente que nos rodeia. Por isso, os bebés geralmente estão altamente motivados; eles querem responder a todas as coisas novas que os rodeia.

Só que à medida que a criança vai crescendo, vai tendo mais consciência da automotivação como resultado de uma recompensa com que ela se vai obsequiando. Vai sentir prazer e orgulho por uma atividade bem realizada e que faz com que se sinta bem com ela própria. As crianças começam a perceber que as suas ações produzem certos resultados. Motiva-as experimentarem coisas novas. Pelo que começam a desenvolver um sentido de controlo e domínio e isto faz com que elas se sintam cada vez mais capazes e aumentem a sua autoconfiança. Deste modo, elas, mais do que motivadas pelas recompensas dos outros, são motivadas pelo puro prazer de ver que o seu comportamento permite alcançar um objetivo.

Contudo, é importante lembrar que as crianças, uma mais do que outras, dependem dos outros para se motivarem. Por isso, isso não significa uma diminuição da importância da relação da criança com os outros, em particular com as figuras que são mais significativas para ela, como sejam os seus pais e amigos. Obter a sua aprovação torna-se mais importante à medida que a criança cresce. Essas figuras significativas podem e devem incentivar e apoiar a curiosidade da criança de modo a aumentar a sua automotivação.

E crianças que estão automotivadas tendem a persistir nas suas atividades por mais tempo. Elas sentem que possuem controlo sobre o que fazem e gostam de desafios. Quando as crianças sentem que podem atingir os seus objetivos, elas sentem-se bem consigo mesmas, o que beneficia a sua saúde mental e bem-estar, sem dependerem de ser constantemente elogiadas pelos outros para se sentirem bem com elas próprias. Assim, apenas é necessário o elogio adequado com peso e medida!

Elisabete Condesso / Psicóloga e Psicoterapeuta

© PsicoAjuda – Psicoterapia certa para si, Leiria

Sobre o Autor

Elisabete Condesso

Directora clínica da PsicoAjuda. Psicóloga clínica e Psicoterapeuta. Licenciada em Psicologia Clínica pela ULHT de Lisboa e com pós-graduação em Consulta Psicológica e Psicoterapia. Membro efetivo da Ordem dos Psicólogos. Título de especialista em “Psicologia clínica e da saúde” atribuído pela Ordem dos Psicólogos.